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Desfile SPFW: Ronaldo Fraga

Respingos de sangue azul. Assim Ronaldo Fraga descreveu uma das poucas estampas de sua nova coleção. “Porque todo mundo acha que é diferente, melhor do que o outro. Que tem sangue azul, né?” O tema do desfile era o conflito secular entre palestinos e israelenses, um drama que já derramou muito sangue – sempre da mesma cor, independentemente do lado. Mas a mensagem era universal e, neste momento, especialmente brasileira. “O lugar onde sinto mais a violência hoje é o Brasil. Não podemos viver assim”, diz Ronaldo. O caminho é difícil, e ele sabe disso, por isso afina seu recado e pede o mínimo, que já significa muito. “Meu desfile não é sobre paz. Meu desfile é sobre tolerância.”

A tolerância de Ronaldo Fraga vem acompanhada de um desejo de amor e de uma urgência de diálogo. Os modelos – dois homens, duas mulheres, casais héteros mais velhos ou novos – entravam em dupla, um de cada lado, se encontravam na frente dos fotógrafos e se beijavam. Depois, sentavam na longa mesa colocada no centro da passarela para comer juntos.

Nas roupas, a ideia era marcar algumas características do vestuário ortodoxo judaico e árabe com acessórios como os chapéus usados pelos judeus, ou o lenço palestino mas, de maneira geral, propor um look que poderia ser comum a ambas as culturas. “Por isso a base da coleção é a camisa: ela veste todos, palestinos e israelenses.” As típicas listras azuis usadas pelos dois povos também aparecem na coleção. O tecido é democrático: mais de 90% da coleção é jeans, com uma ou outra exceção de sarjas e linhos. Os bordados artesanais, uma marca registrada de Ronaldo, foram feitos pelas bordadeiras Barra Longa (MG), cooperativa com a qual o estilista trabalha há tempos. As laranjas e peixes de richelieu, assim como os bordados de estrelas, luas e árvores foram feitas por elas. Nos acessórios, destaque para as bolsas de peixe, da marca Yë, e para os tênis, da grife Kruzin, de uma brasileira radicada nos Estados Unidos. Na beleza, assinada por Marcos Costa, as tranças de várias cores numa mesma modelo simbolizam a diversidade.

Numa das saias, a estampa de sobrenomes de cristãos novos no Brasil (Oliveira, Moreira, Pereira) faz o paralelo com o Brasil, assim como uma tipóia feita de camisetas da seleção brasileira. Essa conexão vem também do desejo de que, a despeito de brigas políticas, as diferenças sejam respeitadas, algo que Ronaldo sentiu em visita que fez a Tel Aviv no ano passado, quando observou uma comunidade gay ativa e livre na cidade. Foi a partir daí que pensou em fazer sua coleção inspirada na relação de amor e tolerância em meio a um conflito religioso tão forte.

No fim do desfile, os modelos estenderam as mãos aos convidados da platéia, e nos convidaram a sentar à mesa e jantar com Ronaldo, no meio da passarela. Comer, beber, conviver uns com os outros diante e/ou apesar da discordância.